quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

o bom senhor


Eu sei que a escravidão
é ilegal mas
devo confessar que
eu tenho um escravo

no entanto ele é feliz
e gosta de me servir

está sempre
de bom humor e tudo que
quer é um prato de comida
e um lugar coberto pra dormir
(mais nada)

e eu também não sou
um carrasco e nem
me apraz humilhá-lo

ao contrário
gosto tanto do
meu humilde escravo

que emprestei-lhe
o meu nome

mui carinhosamente
eu também o chamo de POETA
se bem que o poeta aqui sou eu
ele apenas escreve o
que eu lhe tenho ditado

eu mesmo ensinei meu escravo
a ler e escrever

e fiz dele um
cavalheiro

sempre lhe ordeno que
trate as mulheres
como rainhas que são
(ainda que também sejam escravas)

e ele faz tudo
que eu mando

limpa
poda
e cozinha
sem temer
o sol
sem temer o
frio ou tempestade

a problemática
surge quando por ele eu sinto empatia

ai como sofro (!)
mesmo eu estando ali
às margens do Sena

por um momento
eu esqueço esta minha
imortalidade e sofro
na carne tudo que
meu escravo aguenta
sem jamais se queixar

mas quando eu me vou
meu escravo falece
e não tardo a
arrumar um outro
pra servir-me


                                                            /////////////////
óleo sobre tela: Arnaldo

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