quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"never give up" (nunca desista)


Deram-me na saída
do inferno um envelope com dois belos seixos
um era preto
e o outro branco
(algum anjo anônimo deixou-me de presente) 

Em verdade eu nunca fui um sujeito feliz
durante toda a minha vida
vida de grande sofrimento
eu nunca havia
parado pra pensar
na intensidade do amor

por onde eu andava
só via ganância e corrupção

colocavam alimentos
envenenados ou
transgênicos nas feiras
e não estavam nem aí para 
a saúde do próximo

isto era normal

descri de Deus porque com raras exceções 
aqueles
que falavam de Deus
eram hipócritas
canastrões 

e eu continuava com a vida
pensando sempre
em afastar a morte
deixá-la no fundo do corredor

mas o meu sofrimento
tornou-se insuportável
quando a saúde ameaçou
me abandonar

eu que já fora abandonado
por todos
absolutamente todos
os homens

somente os animais
queriam se aproximar
mas eu não os queria
como eu iria deles cuidar
se mal podia me escudar

e de fato
tudo visava
a minha aniquilação

até a velhice
de mim se aproximava
como um cão vagabundo

então finalmente
eles venceram
fui parar num quarto de hospital
onde todas as paredes
eram brancas
os lençóis e toalhas
as camas
as vestes das enfermeiras
que esbanjavam saúde
a luz do teto
o teto
tudo alvo

fiquei tanto tempo vendo
cenas de sofrimento
ouvindo gemidos
constatando chegadas e partidas
que já não mais sabia 
o que era noite
ou o que era dia

um dia recebi a visita
de uma bela mulher
seus olhos eram
incrivelmente belos e brilhantes
olhos que pareciam sorrir
junto com a belíssima boca



eu gostava do brilho de seus dentes
mas também amava
seus lábios fechados

eu sabia
que aquele era
o seu ofício
e que trataria a todos
os enfermos 
com a mesma compaixão

sua roupa era preta e branca
deduzi que talvez 
fosse uma religiosa

mas eu gostava de me iludir
achando que seu olhar
se demorava mais
em mim do que 
nos outros

e quando ela se ia
dava vontade de morrer
mas ficava a esperança

quando ela voltaria(?)
quando(?)

e quando ela voltava
eu não sabia o que fazer
eu devia estar com horrível
aparência

mas ela parecia não
se importar com nada
sorria e me olhava
com total profundidade

minha alma estava
entregue à sua benevolência
eu na vida não tinha mais ninguém

a presença daquela mulher
uma vez ao dia
era tudo para mim

falar de sua beleza
eu nem posso
não sou poeta

seus cabelos
sua pele virgem
tão lisa e macia

um dia seus
dedos mergulharam-se
carinhosamente na minha cabeleira grisalha

fiquei extático
senti-me no céu
eu estava certo
ela só fez isto comigo
com mais ninguém

ela me escolhera
entre muitos
minha sorte estava
mudando e 
eu comecei
a cuidar de mim
antes de sua chegada

já conseguia me barbear
cuidar de meus dentes
e me demorava no banho

meu dever era estar impecável
para ela
seu nome tão lindo
tinha tudo a ver com ela
e eu o repetia no pensamento
como se fosse um mantra

mas então o
médico disse
que eu tinha melhorado
e que logo poderia
ir para casa

aquilo me estremeceu
casa(?)
casa bagunçada
empoeirada
fria
solitária (?)

e o pior de tudo
se eu fosse embora
perderia o meu amor secreto

não não
eu tinha que ficar
doente
eu fingiria
(por ela)

no entanto
algo terrível
aconteceu

a mulher não mais voltou
logo eu fui liberado
e decidi me cuidar

cuidar de mim com toda gana
eu seria quase um "Frank Medrano"
e assim ocorreu

agora eu tinha
saúde de sobra
e corria pelos parques
da metrópole diariamente

mas parava
sempre num banco
e ficava horas
olhando ou simplesmente 
sentindo nas mãos as
duas pedras

a preta significava
morte
sono repouso
meditação

a branca significava
vida
movimento
luta
ação

somente agora
eu entendera o
significado
agora a minha vida estava correta
eu estava de posse das duas pedras

um belo dia
enquanto meditava
vi uma mulher elegante
passar pelo parque

eu não tive dúvidas
era ela
sempre usando 
vestido preto e branco

mas ela não me
reconheceu
claro
eu havia mudado

e sempre passava
por ali aos domingos
no mesmo horário

um dia resolvi
colocar as duas 
pedras na minha frente
para meditar
a branca do lado direito

neste dia ela
parou
e olhou as duas pedras
pois fora ela que as deixou
com a recepcionista do hospital para mim
olhou-me nos olhos
por alguns segundos

vi que seus olhos começaram a brilhar
sem parar
até verterem lágrimas
só então ela me sorriu
(...)





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