sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sóis do manto


Tinha uma mariposa pousada na parede
parecia toda feita de ouro e prata

agitava as asas sem voar
e o brilho era semelhante
ao largo rio que me separava
do amor inebriante

rio pujante de cujo leito
se erguia além do brilho
uma névoa delicada
como um noturno de Chopin

tinha uma mariposa pousada na parede
repleta de fausto 
desafiando com sua beleza
o ourives do rei

sua tendência era sempre subir 
seu nobre objetivo era ser mulher
mãe e trabalhadora
mas precisava ter tempo
para sonhar-se 
tecer letras elevadas
até a lâmpada irradiante

pois lá fora tudo era molhado
em cada terreno
em cada trunfa de capim
tinha uma nascente
que garantia o verde do ano

e qual seria o interesse
de uma noiva régia em
molhar e sujar o seu véu e vestido
de filigrana áurea (?)

a borboleta noturna era frágil
como as pontes 
feitas de madeira
do lugar

a noiva apesar de linda
era toda borralheira
cultivava antúrios com as unhas 
mas tinha pouca vaidade

parecia não ser pecadora
parecia não ser uma santa
seu manto imitava um triângulo
que cobria seus sentimentos
ocultava seu coração

tinha uma mariposa pousada na parede
o que ela fazia(?)
o que queria
obter na glória(?)
desfiar a minha carne
em quatro dias

atirar os pedaços no rio
transformar meu sangue em
belas cachoeiras(?)

ah quantas cachoeiras
e matas tão perto
e tão longe dos pés
e da púrpura

e caindo da luz
como a cabeça guilhotinada
da infame Antonieta
rolaria sobre estes
intratáveis caminhos
de tragédias
traição
diversão e tratores

aí então eu a teria
e não faltaria braços para abraços
beijos prelúdios e solfejos
na lama da minha existência
não faltaria amor 

tinha uma mariposa pousada na parede
e eu ali abaixo do rodapé

desejava de seu manto
o sol bordado em prata
o beijo molhado
e da linda boca o calor



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