sexta-feira, 17 de março de 2017

charco 2

Somos todos
entrincheirados
famintos
fétidos
exaustos e molhados
morando na lama
por entre os ratos
que comem os
corpos putrefactos
(de suas próprias baixas)
mal enterrados
perto das fossas
de fezes cheias
ali ao lado

e desses buracos
não podemos
sair
avançar
ou recuar
a menos
que muito feridos
sejamos resgatados
pelos padioleiros
heroicos

padioleiros
eventualmente
também são mortos
não somente pelos inimigos
mas por companheiros
em pânico

(Jesus foi um deles)

Havia quem
com olhos
cheios de terra
também matava
seus aliados
que vinham
pedir pra tirar
um piolho do olho

ou vinham
lhe trazer água
menos contaminada
remédios fumo
poesia ou aguardente
ou só conversar
sobre seus amores
distantes
ou falar das prostitutas
bonitas que desejavam pegar

havia quem
saia e corria
na direção
do inimigo
sem encher o saco
(de areia para se proteger)

havia quem a si se feria
escondido para
ser recolhido
mas por vezes
era punido com a morte
quando desmascarado


e havia quem
insistia em decorar
as trincheiras
com folhas mortas
ou com a foto
do Padre Cícero
com seus dez
mandamentos
no verso
(inexequíveis
na situação)

e evitava
comer a carne
dos ratos
enquanto
era bombardeado
com produtos
químicos mortais

eu não enfeitei
a trincheira
exceto em minha mente
que voava para longe
para os braços do meu amor


realmente
eu ficara ferido
traumatizado
em minh'alma
por isso fui recolhido
não sei se pelas Valquírias
por um unicórnio psicopompo
ou por um
"coelho Salvador"





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