sexta-feira, 17 de março de 2017

o"dito-cujo"

Houve um tempo
em que os pais tinham como meta
escavar o DNA

nasceu uma menina
que bom
mas da próxima vez
bem que poderia ser 
um homenzinho à
semelhança do pai

e veio um varãozinho valente
talvez o próximo poderia
vir ainda mais valente
era preciso aperfeiçoar

veio uma menina
ótimo
será companhia para 
a primeira

mas vamos escavar
vamos escavar (!)

excelente (!)
mais um irmão
para assumir
os negócios

e se vier um outro
ah que pena
morreu o Reinaldo

mas onde tem um "Rei"
deve ter também um príncipe
vamos 
escavar escavar (!)

hum
foi mal
veio um bobo
vai se chamar Arnaldo
que significa
"o poder da águia"
(puseram este nome
para compensar)

pois na verdade
era só olhar pro menino
para ver o fracasso

prematuro
moleirão
mal se mexia

melhor não divulgar este aí
e fazer um outro

pronto agora sim(!)
este terá o nome do pai
e é melhor fechar o garimpo

que maravilha (!)
com exceção do (...)
a prole foi boa

e o bobo foi crescendo
e quem o via
fazia mentalmente
o sinal da cruz

eu era diferente sim
descobri pelo
olhar assustado de quem me via

assim
evitado
escondido
eu cresci

e logo percebi
que eu não tinha o poder da águia
mas o do corvo

eu era o agouro
e meu destino era ser
o mais solitário 

quem arriscaria a sorte
o menino era do diabo
estava escrito em sua face

naturalmente ele seria
incapaz de viver neste mundo
mas o que fazer
já que nasceu(?)

e enquanto meus irmãos
aprendiam o ofício do pai
eu divagava
no mundo dos insetos

olhava as formigas
e procurava por caracóis
debaixo dos cogumelos


ficava o dia todo atrás da casa
onde o muro era coberto
de musgo e samambaias

por proteção dos anjos 
nunca uma cobra 
me picara
é claro
eu não estaria aqui 

mas nunca ninguém
se importava
por eu brincar atrás da casa
onde moravam os escorpiões
e as cobras

pois assim poucos veriam 
o malnascido


de certa forma
eu não escolhi ser solitário
apenas tive que me acostumar

e até hoje sou havido por todos
como aquele que se deve evitar
 o trevoso
o macabro eremita

que bobagem(!)
não há solidão
onde há plantas
fungos pedras e
animais

Nenhum comentário:

Postar um comentário