domingo, 26 de março de 2017

o primogênito


Por que as pessoas esquecem
os detalhes da infância? Eu não entendo.
 Lembro-me absolutamente de tudo.
Quando eu era moleque,
não vivia com os outros moleques
a pintar o sete pelas ruas de Patos de Minas

Eu era moleque de fundo de quintal
e brincava de "casinha "
com a menina sardenta e ruivinha
da imponente casa ao lado,
que tinha a fachada azulejada
na cor do abacate.

Lembro-me do meu carrinho de plástico
que  eu enchera de britas,
pra não capotar facilmente.

Brincávamos eu e ela,
a maior parte do tempo
dentro do enorme porão,
onde o seu pai
guardava dezenas de
sacos de arroz e milho
que colhia todo ano na fazenda.

Ainda sinto o cheiro delicioso dos
sacos de linhagem cheios de cereais,
por entre os quais, nós
fizéramos as estradas do meu carrinho
delineadas com as grandes e belas
sementes de milho seco.

Eu voltava pra "casa" fingindo cansaço.
Então, gentilmente, minha
amiguinha preparava-me numa garrafinha de
guaraná(daquelas de vidro)
um leite com chocolate.

E o leite era de verdadezinha.
Hum... como era bom!

Minha maior tristeza, aconteceu
justamente quando nós dois
deliberamos sem maldade,
que queríamos um filho.

Então, recortando uma
 caixa de ovos de papel,
construí um belo boneco,
enquanto ela cuidava da
vestimenta colorida.
Estávamos tão
contentes com o nosso bebê, tanto
que na hora do almoço, o levei para
casa, a casa (real)onde eu morava,
mas, fui duramente repreendido.

Disseram meus parentes:
" O Fio tá brincando de casinha e,
como se não bastasse,
agora arrumou uma boneca."

Em seguida, rasgaram a escultura.
Foi difícil voltar pro porão
sem o nosso filhinho.
Acho que eu e ela
choramos muito
naquela tarde.

Logo, colocaram-me
de rabicho no meu irmão,
que ia brincar com vários meninos
na casa da amiga de mamãe .

No dia seguinte
acusaram-me de ter incendiado
a casa. Lembro me das vigotas do telhado
transformadas num grande carvão,
do esqueleto negro da árvore
de natal que no dia anterior era
branca, toda coberta de algodão.

Injustiça! Eu não pus fogo naquela casa!
Mas sendo o mais
palerma entre uma
duzia de moleques e o mais
indicado pra se acusar,
fizeram-me o "bode expiatório"
sem ninguém pra me defender
(nos meus quatro invernos de vida).

Não deu certo eu brincar
com a turma de meu irmão,
nem pude mais brincar
com a pequena ruiva
(a qual foi escondida
de mim, para sempre).
Ah! Que saudade!

Vivi só depois disso,
com meus amigos imaginários.
Um dia, preparei uma garrafa
de leite e tentei fugir, mas antes que
eu deixasse a cidade,
gigantes de uniformes
vermelho, encontraram-me.
Toda a cidade passou a comentar
a fuga do autista,
filho do Lerô.

Fiquei contente por me
chamarem de "autista"
e comecei a fazer desenhos
e pinturas bem coloridas.

Aos sete anos de idade,
levei um tiro
de cartucheira na cabeça,
e por meio de enxerto
de carne “desconhecida”,
refizeram a minha face
e por seis meses fiquei internado.

Ainda trago dez chumbos
dentro do crânio.
Na verdade são nove,
porque ao tomar a "thuya,"
um deles pulou pra fora.

Coloquei o mesmo dentro
da cabeça de uma
de minhas esculturas,
a única que não está à venda
em minhas exposições artísticas.

Eu a chamo de
"o primogênito",
o meu filho,
que mal conheceu a sua
tão calada e doce mãe.

















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