domingo, 2 de abril de 2017

a metáfora da pipa


Uma vez senti o perfume de uma flor
éramos como Schiller e Goethe
como Van Gogh e Gauguin
como irmão e irmã

mas numa manhã a flor se abriu
nunca mais fui dono  de mim
e meu corpo ficou cativo

eu tinha desta flor 
o ovário 
o estigma
o estilete
e os espinhos

mas todo o néctar
pertencia ao colibri

foi assim que vivi
sempre escravizado
sem poder fugir
fingir ou trair
(sem conhecer a doçura dos meles)

ah(!) sorte a minha(!)
por vezes quem solta a pipa
resolve dar toda a linha do carretel

e agarrei com unhas e dentes
nos galhos e nas escarpas


tornei-me um
homem pobre da montanha
mas sem perder a dignidade
senhor dos tesouros visuais

cá de cima eu pude ver
como aconteciam
as profecias desta linda
gardênia-branca que dança

é que a luz e o mar
dançavam no mesmo estúdio
e escondia de meus olhos fracos
os cardumes de robalos

o espardarte machucava
mas não me dava meios
para explicar-me

já não bastava eu estar
crucificado cá em cima(?)
queriam o sangue e água

mas eu fiquei quieto
diante dos cardumes
e dos tubarões

"não quebreis os meus ossos
não percebeis que já estou morto"
(implorei)

do outro lado
a flor já quase não conseguia
puxar o fio lúdico
pois forte são os ventos
do cume da montanha

aqui no meio destas brumas
não há muita diferença 
entre o sim e o não
e a infâmia pouco fere-me

eu nunca entendi de jogos
eu não sou como os
colibris que entendem
a crueldade das flores

quisera a própria lança do destino
no vai-e-vem da dança dos cardumes
romper a teia que liga-me
ao imane perfume
ai meu Deus 
quisera(!)




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