sábado, 22 de abril de 2017

o último presente do tempo


(...)feito isso
não resta mais
nada

o salgueiro
encostou-se no chão

a vida transformou-me
num  anfíbio

seria infantil crer
que uma princesa
pudesse sair do palácio
se aventurar pela floresta
e beijar um sapo 

quanto desatino
pensar que
um homem de pele de limo

pudesse arrancar a palmeira
do Buriti
salvá-la do dilúvio

e com o seu amor
e seu corpo
fazê-la sorrir

sei que é mais fácil
acreditar em fadas
do que quebrar
um feitiço

acreditar que o fogo
fica dentro da vela
e não na centelha
do palito

olhar-se no espelho d'água
e ver um corpo
ao invés da alma

ver no presente
o que foi ou o que será

mergulhar em busca de pérolas
e desprezar o milagre de respirar

sei que é mais fácil
adoecer ou correr
ao invés de simplesmente caminhar

se desesperar no deserto
ou morrer
do que apenas aceitar

é mais fácil ocultar o sinal da face
do que  como uma beduína
se apresentar 
e se perder a
se encontrar

agora eu sou um anfíbio
tenho os pés na Terra
mas a alma 
já vive na floresta
no deserto 
no céu ou em
qualquer lugar

















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