segunda-feira, 27 de março de 2017

aqui dentro


Tudo que julga
ou se julga
não é eterno

o que aparentemente se é
não é o "Ser"
mas o mero "estar"

hoje eu estou
religioso
mas amanhã posso
estar louco

hoje estou isto
amanhã posso estar aquilo
quem sabe(?)

o Ser Eterno porém
permeia todas
as estações

e não vê superioridade
do verão sobre o inverno
nem da primavera sobre 
o outono

como posso afirmar
que o fogo
e a água são opostos
se o corpo físico
a ambos absorve(?)

afasto-me dos extremos
nem céu e nem inferno
não só verde mata e riachos
não só concreto e relacionamentos

há árvores que dão frutos
cuja madeira não é boa
há árvores de madeira de lei
mas que não dão frutos

eu devo ter apenas dois amigos(:)
morte e sabedoria
devo ter como mãe
somente a NATUREZA
e como pai
apenas e tão somente
o ETERNO







.





domingo, 26 de março de 2017

aqui


Retorno ao ventre
ao meu mundo
pequeno
sem leme

sempre entregue
aos cuidados dos anjos

retorno alquebrado
ao meu mundo sem música
de silêncio e passarinhos

mundo ingênuo
e selvagem
onde o corpo é solo
onde o espírito
é real

de realidade eterna
ele penetra no tempo
corta este espaço

e mostra-me só 
o que vale a pena
rompendo as películas
de novos universos

sóis e mundos
desconhecidos
fulgurando num 
espelho de vazio


retorno
para o mundo 
onde a grandeza 
é grão
e o amor 
me espera em glória

retorno assim
perplexo pelo que vi
triste com o estado das coisas

e quando retorno
posso sentir a dança
das copas  com folhas
que farfalham
na frente da luz 

há palavras demais lá fora
e algo a ser sentido
onde parece não haver 
música nem expressões



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.

o primogênito


Por que as pessoas esquecem
os detalhes da infância? Eu não entendo.
 Lembro-me absolutamente de tudo.
Quando eu era moleque,
não vivia com os outros moleques
a pintar o sete pelas ruas de Patos de Minas

Eu era moleque de fundo de quintal
e brincava de "casinha "
com a menina sardenta e ruivinha
da imponente casa ao lado,
que tinha a fachada azulejada
na cor do abacate.

Lembro-me do meu carrinho de plástico
que  eu enchera de britas,
pra não capotar facilmente.

Brincávamos eu e ela,
a maior parte do tempo
dentro do enorme porão,
onde o seu pai
guardava dezenas de
sacos de arroz e milho
que colhia todo ano na fazenda.

Ainda sinto o cheiro delicioso dos
sacos de linhagem cheios de cereais,
por entre os quais, nós
fizéramos as estradas do meu carrinho
delineadas com as grandes e belas
sementes de milho seco.

Eu voltava pra "casa" fingindo cansaço.
Então, gentilmente, minha
amiguinha preparava-me numa garrafinha de
guaraná(daquelas de vidro)
um leite com chocolate.

E o leite era de verdadezinha.
Hum... como era bom!

Minha maior tristeza, aconteceu
justamente quando nós dois
deliberamos sem maldade,
que queríamos um filho.

Então, recortando uma
 caixa de ovos de papel,
construí um belo boneco,
enquanto ela cuidava da
vestimenta colorida.
Estávamos tão
contentes com o nosso bebê, tanto
que na hora do almoço, o levei para
casa, a casa (real)onde eu morava,
mas, fui duramente repreendido.

Disseram meus parentes:
" O Fio tá brincando de casinha e,
como se não bastasse,
agora arrumou uma boneca."

Em seguida, rasgaram a escultura.
Foi difícil voltar pro porão
sem o nosso filhinho.
Acho que eu e ela
choramos muito
naquela tarde.

Logo, colocaram-me
de rabicho no meu irmão,
que ia brincar com vários meninos
na casa da amiga de mamãe .

No dia seguinte
acusaram-me de ter incendiado
a casa. Lembro me das vigotas do telhado
transformadas num grande carvão,
do esqueleto negro da árvore
de natal que no dia anterior era
branca, toda coberta de algodão.

Injustiça! Eu não pus fogo naquela casa!
Mas sendo o mais
palerma entre uma
duzia de moleques e o mais
indicado pra se acusar,
fizeram-me o "bode expiatório"
sem ninguém pra me defender
(nos meus quatro invernos de vida).

Não deu certo eu brincar
com a turma de meu irmão,
nem pude mais brincar
com a pequena ruiva
(a qual foi escondida
de mim, para sempre).
Ah! Que saudade!

Vivi só depois disso,
com meus amigos imaginários.
Um dia, preparei uma garrafa
de leite e tentei fugir, mas antes que
eu deixasse a cidade,
gigantes de uniformes
vermelho, encontraram-me.
Toda a cidade passou a comentar
a fuga do autista,
filho do Lerô.

Fiquei contente por me
chamarem de "autista"
e comecei a fazer desenhos
e pinturas bem coloridas.

Aos sete anos de idade,
levei um tiro
de cartucheira na cabeça,
e por meio de enxerto
de carne “desconhecida”,
refizeram a minha face
e por seis meses fiquei internado.

Ainda trago dez chumbos
dentro do crânio.
Na verdade são nove,
porque ao tomar a "thuya,"
um deles pulou pra fora.

Coloquei o mesmo dentro
da cabeça de uma
de minhas esculturas,
a única que não está à venda
em minhas exposições artísticas.

Eu a chamo de
"o primogênito",
o meu filho,
que mal conheceu a sua
tão calada e doce mãe.

















quarta-feira, 22 de março de 2017

do amor livre


Quando exilados esses sonhos
mundos inteiros desaparecem
como numa catástrofe

nós somos os criadores
da dimensão celeste
e nós somos este demiurgo
que cria o inferno

céu e inferno
são estados mentais
arder entre gritos 
é perder o poder sobre 
os pensamentos e sonhos

mas o estado destas coisas
depende apenas
do modo como se vive

as criaturas ao nosso redor
são instrumentos da tentação
o objetivo dos seres humanos
é transformar você em uma 
água apodrecida e fétida
(raros são os anjos
cuja pureza de coração
não visa interesse)

o que chamam de amor
sempre visa algo
visa alguém para preencher o seu vazio
visa algum corpo que lhe dê prazer
visa alguém que lave seu carro
que conserte sua casa...

destas exigências
a mais grave é a primeira
quem não for capaz 
de preencher-se a si mesmo
será sempre um parasita
da força alheia

e o que a maioria  mais quer
é que seus super pastores e super gurus
ou super amores lhe preencham para sempre

as meninas buscam desde cedo o seu
príncipe salvador
que chegará num veículo branco

outros buscam forças
nos desencarnados e outros 
buscam força em si mesmos

ora como pode o fraco buscar força no fraco(?)
é regra da liberdade
que a força provenha de um "Outro"


pouco importa o nome que você o chame
desde que você tenha certeza
de que Ele é a fonte da força absoluta

Esta força esta fora
mas também está dentro de você
você é apenas um aquário
submerso numa enseada
e esta Água está em toda parte

um aquário é mais perfeito
se estiver assim
pois os peixes entram e saem
com naturalidade

mas pense nos transtornos
de um aquário na estante
aprisionando peixinhos

em quão pouco tempo
sua água fica podre
e seus peixes fenecem

quando você acredita em si mesmo
você está investindo 
neste bocado de água parada
e nos peixes que lhe preenchem a alma

eis por que é melhor
cair no mar
renunciar à tudo
e deixar que a água do mar
lhe envolva por todos os lados

você é o aquário
as criaturas não podem lhe preencher
nem o seu bocado de água
é sustentável

não conte com as criaturas
que nadam
não conte com a água
de outros aquários
apenas se jogue no mar

muitos peixes livres
(que são anjos)
visitarão seu coração
com amor verdadeiro




.
.

segunda-feira, 20 de março de 2017

imobilidade


Se há um lugar pra mim neste mundo
talvez seja aquela mais alta
torre dos Himalaias

uma ponta de pedra tão pequena
e inacessível que
só eu pude escalar

e ainda que eu quisesse
gritar e contar-lhe
a minha história

estando eu no alto
não diria um "til"
para não causar avalanches

estando no alto
eu pouco poderia
mover-me

e lutaria contra o vento
para não cair e morrer antes de ver-
TER
o amor em lágrimas







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vacilo


Ah! Quantos equívocos
nesta moagem!
...e o nome dela
era 
"Solitude".








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assenso


Culto de estranha clausura
no quarto em que jaz
varre réstias de alegrias
vê a lua se esfregando
na vidraça

mas já decanta-se tudo
que sonhou
em camadas de
inerte esquecimento

convive com as dores de aviso
enquanto  a morte semi-absoluta
adquire lotes nas cercanias

é tudo tão inútil
tanto que a alma silencia
se a carne parca
reclama  o antálgico
de um prazer
fugaz 






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dilema

O ponto "G" da "gata"
anotei na ata
o ponto fraco do gato
está no ato de dormitar ao mormaço

não perca o fio 
da lã da meia 
entrada e saída
se confundem
no ingresso

e quando você sair
feche a porta e apague a luz
pra não dizer o inverso
que é tão óbvio hyppi' e velho

caro compadre 
venho por meio desta 
dizer que Jacó já comeu Jacobina
abre o olho da testa Cornélio
Jacó é o padre

vixe(!) deu lobo no bolo
fez rolo num "rolex"
e deu o bolo no bobo

(em um minuto)

francamente
de quem é o Brasil(?)
dos portugueses
dos franceses
dos espanhóis (?)


quem viu primeiro(?)
(os nativos não contam)(?)