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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

PASSEIO DIVINAL



Quando as palavras
atingem a temperatura escarlate
e não há bolhas no sentimento
nem vírgulas nas massas (...)

o esmalte espesso começa
a fusionar-se aos corpos em cores
mescla-se ao lugar campesino dos nossos sonhos
para poder uma estrofe amorfa
expressar o amor

normalmente precede que
poema e poeta
são amassados e batidos
com força e gravidade 
todos os delírios platônicos infinitos
misturados ao pó cerâmico peneirado

o pó que dá rimas
sutis e ductibilidade aos percalços
mas sendo este feito dos próprios
florais dos teus campos 
lagos e cornijas
clama 
verbos entre nevadas
linhas de adjetivos tortos
e chamas de lareiras

"Ai minha morte amada (!)
morte amada (!)
minha amada" (!)

se por um lado suportam
o choque térmico
não obstante nas colinas mais verdejantes
pode sua estrutura molecular se partir
apesar do amor verdadeiro 

vai perdido no tempo de um país distante
tão vítreo e perfumoso no declamar
mas quebrar-se-á como o 
desvio vermelho e tímido 
do cristal mais seco do teu olhar

portanto o poeta
nunca deve abandonar
a plasticidade e a majestade do teu corpo 
dos teus cabelos penteados sem pressa
e toda a tua majestade virginal

guarda a argila mais orgânica
que confere aos substantivos poéticos
a maleabilidade necessária
para expressar a força do casto amor

sim eu grito como a alma que estala gelo 
dividindo o lago do outeiro
por alguém que se queima sem chamas
quando há olhos nos olhos do oleiro

E quando no país do fim do mundo
esta luz boreal da fornalha se planta 
ouve-se no silêncio em ritmo
a leitura do beijo breve

livres no calor de um casebre de madeira   
ou ao ar livre lá na orla
a voz da brisa revela em soalheiros poços com vapor
a porcelana fina que é tua pele


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